POEMA DE QUATRO


I
Porque pensar que um quadrúpede
(por ter patas) tenha menos
sabedoria e afeto?
Porque pensar que nós bípedes,
presunçosos, prepotentes,
somos a imagem de Deus,
os deuses da inteligência? 
Porque pensar que um batráqueo,
cascudinho e fedorento,
é menos filho de Deus,
é menos gene que a gene?
Porque pensar?

II
Nos outorgamos
sábio de uma sabedoria vã.
Nos outorgamos
doutores em mil facetas.
Mas, o Criador
concedeu aos irracionais
a are de construir
e destruir,
de transformar a matéria
em nada.

III
De transformar a matéria
em tudo.
Tudo o que ilumina.
Tudo o que vibra.
Tudo o que ama.
E no entanto nos outorgamos o poder.
O poder de vida e morte
sobre as coisas
racionais
ou irracionais.
E no entanto tomamos posse
dos quadrúpedes, dos bípedes, dos batróqueos.
Invadimos a vida
com nossa idéia de morte.
de nossa 
matéria.
Afinal, porque pensar
em mim, 
na minha matéria,
nas minhas coisinhasíntimas
se as flores,
os dias, as noites, 
o sol e a chuva
vivem,
independentes
de  mim?

IV

Brincando de fazer
alquimia na esperança
de sermos superiores (aos inferiores).
Somos invadidos para sermos tudo
e do tudo nada somos.
Somos complicados
e cabeçudos
diante de uma simples
irracionalidade,
diante de uma simples
flor.
Vem o dia,
vem a noite,
vem o sol,
vem a chuva e 
somos decompostos


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